quarta-feira, 7 de setembro de 2011

V- fim

...manhã, segunda, recebe alta, onde estaria Anne? A agitação da cidade a deixa confusa, superara a crise, o movimentar de carros e pessoas agora parecia normal, sem vislumbres, sem alucinações. Um súbito desejo de se drogar ainda lhe persegue, uma dose de whisky no bar mais próximo, e logo estava ela atrás de Flea, sabia agora que poderia parar, não passaria por outra noite como a de sábado, mas um baseado não faria mal, só para tranqüilizar um pouco. Tocara a campainha várias vezes, nada, dois jovens sentados no degrau ao lado falavam de Flea, perguntei, fora preso sábado, junto com a mula que trazia a mercadoria, Anne saberia quem mais vendia, mas onde estaria...

O sangue inundava a cela, o policial caído, morto, presenciara um brutal assassinato na cela ao lado, estava em choque, pensara em fugir, mas nunca mataria alguém, a garota fugiu, armada, dois policiais a confrontaram, troca de tiros, baleada na testa, triste fim. E depois de toda aquela bagunça os dois entraram, estava livre, desacorrentada, desnorteada, e agora vagava pelas ruas sem fim, pelos corredores sombrios do metrô, a estação estava lotada a essa hora, mas o número de viciados era menor, não encontrara Flea nem George, e Natasha, estaria bem, talvez em casa.

Natasha lembrara de George, seu infame amigo, que fazia ponto no metrô, sempre tinha algo a mais do que consumia. A estação encontrava-se bastante movimentada, só alguns poucos viciados, e muitos passageiros. George largara o ponto, disseram que se livrara das drogas. Fora dali, a cidade parecia calma, mas onde estaria Anne. Talvez na escola, tinha faltado muito, não concluiria o curso, não receberia o certificado, melhor ir ao menos marcar presença...na aula, pouco prestara atenção, pensara nela, em casa, o que seria quando tudo acabasse, quando voltasse...

Precisava de algo mais forte, muitas tensões sucessivas, muito stress – cara cê tem um pico? -  precisava de um pico, e um pouco de pó, tudo ficaria bem, em casa esperaria por ela. Não me picava, sabia dos ricos, das doenças transmitidas através das agulhas, misturava os dois pós e cheirava, aquela sensação, alucinações, euforia, ficaria bem, logo Natasha chegaria, então tudo escurecera...

...chegava em casa, era noite, ao subir as escadas notei a luz acessa, finalmente, não me drogaria mais, nos livraríamos do vício, seríamos felizes. Ao abrir a porta a vi caída, chamei, precisava comer algo, na geladeira nada, nos armários nada, perguntei se Anne não estava com fome, sairíamos, ela nada responde, tentei acordá-la, vi os papelotes, tivera uma overdose, não tinha pulso, se descontrolara, estava morta, nada eu podia fazer, não viveria sem ela. Sai, desesperada, precisava encontrar alguém, precisava de ajuda, corri, não notei o carro em alta velocidade...me lembro da pancada, forte, inevitável, mas agora estou com ela, não sei onde, nem o porque, sem drogas, nem vicio, apenas um bom lugar para se viver.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

IV- do início

Londres, final dos anos 80. O crescimento do narcotráfico era cada vez maior, cada vez mais jovens morriam de overdose, e o número de viciados crescia concomitante ao número de mulas e pequenos traficantes. Nos hospitais eram constantes as internações, e logo a fuga destes, pois a política de narcotráfico estava mais dura, e penas cada vez mais rígidas eram aplicadas aos que se envolviam, seja por tráfico, porte, ou uso. As classes média e alta eram as mais afetadas, dinheiro não faltava, a juventude cada vez mais sem esperanças, a sociedade capitalista em crise devido ao decréscimo da economia.
Em meio a tudo isso, chegava Natasha, que fora mandada por seus pais para estudar inglês na Bridge School, lá conhecera Sophie Anne, uma bela jovem, cabelos encaracolados, magra, uma beleza estonteante, amor á primeira vista, e dividiriam um quarto por alguns meses. Anne estava há dois meses na cidade, conhecia diversos lugares, freqüentava bares e pubs, parques e shoppings. Natasha então passou a ser influencia pelo post-punk e grunge, acompanhando a amiga noite adentro, conhecendo todo tipo de pessoas, e logo ser apresentada as drogas, quão bom ou ruim seria isso ela não sabia, mas não aceitou fazer parte desse grupo de indivíduos viciados que imundavam as ruas, em todo lugar lá estavam, jovens acabavam-se, largados para morrer, o metrô era seu maior refúgio, havia vendedores, viciados, pedintes, garotas(os) que vendiam seu corpo a míseras moedas para enriquecer os traficantes, e pessoas comuns, que passavam diariamente para ir ao trabalho.
...Anne e Natasha chegam á nova atração da cidade, London Station, visual retro, música alta, gim tônica, ida ao banheiro e lá estavam duas jovens se picando, eufóricas pela sensação, não tinham sequer noção de como fazê-lo, disse-lhes para parar, elas riram. Disso tinha certeza, nunca usaria heroína, outra coisa talvez, nada que viciasse. Ácido, tinha em mãos, só uma vez não a deixaria viciada, engoliu com um pouco de coca, estava alta, drogada, alucinada, passou mal depois, vômito, mal estar, nunca mais usaria. Em casa Anne perguntara o que aconteceu, disse-lhe que passara mal, só isso, não falara do ácido.
Os dias que se sucederam, Natasha deixava de sair, ficara só. Anne agora já não contentava-se em curtir a música, o gim, conhecera agora a luxúria, a perdição, ficara louca, sempre alta, drogada. Não me contive, não queria ficar ali triste, carente, sozinha.
...leva-me, droga-me, seduz-me, possui-me...disse-lhe.
Anne dizia que eu não poderia parar, ao contrário dela que era forte, e só experimentara viver perigosamente. Mas insisti, e logo entregara-me ao vicio, ás drogas e orgias.
Tive de conseguir algo a mais para manter-me, a grana que meus pais me mandavam já não durava, já não me comprava meu whisky, meu pó, minha vida. Afundava-me cada vez mais, e mais, Anne parou, tentou me ajudar, já não partilhávamos as experiências de antes, não queria parar, queria ela, e ela, nada era suficiente.
...Sede, um gole do whisky mais barato, e logo levantara-se, dormira demais, Anne não estava, tinha ido ao Flea, disse que a mula chegaria hoje, era sempre sábado, no máximo domingo se os canas ficassem de vigia no aeroporto, pedi que ela me comprasse dois papelotes, ela demorara, já sentia-me mal, sentei-me na cama, rosto encostado na janela, olhos atentos á rua, uma goteira produzira um som, um grande eco espalhara-se pelo quarto, não me sentia-me bem, já era meia-noite...o tic-tac...

sábado, 3 de setembro de 2011

III-

...agora ela estava lá naquela cama de hospital, nada eu podia fazer. Estavam todos escabreados, a situação estava tensa no hospital, policiais vasculhavam o local, em busca de jovens viciados, aquela época muitos jovens eram constantemente pegos em hospitais com drogas, internados, ou acompanhado alguém que fora levado ás pressas em quase morte. Dois deles saiam com uma sacolinha cheia de charros de haxixe do quarto ao lado, e eu esperava apreensiva, a qualquer momento eles viriam interrogar-me.

Natasha lentamente abria os olhos. Pensara – onde estou? Morri? Tem alguém aqui, será que estou viva? Então é só me levantar. – Expressara angustia, a enfermeira notara, não estava morta, seu corpo ainda doía, tentou falar alguma coisa, mas estava anestesiada, a enfermeira saiu.

Anne lembrou dos papelotes em seu bolso, agora os policiais vinha em sua direção, seria pega. Não, não seria, sorrateiramente foi ao banheiro, e agora, não a jogaria fora, era desperdício, abriu a droga, cheirou as duas embalagens, saiu então, alta e confusa, logo os canas perceberam sua mudança, pararam-na, procuram em seus bolsos e jaqueta, nada encontraram, sorriu então, um deles foi ao banheiro e viu as embalagens no lixo – dolinha né senhorita. – foi pega, levaram-na.

Meia hora depois no quarto - seu corpo já respondia, ainda com ânsia de vômito e calafrios, não alucinava mais, agora restava-lhe a dor, e Anne, onde estaria, a enfermeira aplicava-lhe outra injeção dormiria novamente.

Enjaulada, acorrentada, maltratada, sufocada, Anne sofria, lembrara de Jhon, seu primo, morrera na prisão, triste, só. Mas ela não, tinha algo, alguém por quem lutar, não se renderia a morte, á verdadeira morte, porque ela já estava morta há tempos, desde que vendera seu corpo para pagar seu vício. Um policial entrava, Anne não morreria ali, planejava escapar...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

II- Demora



...apressei-me o mais que pude, mas a droga do Flea não estava lá, tive que ir do outro lado da cidade, Natasha deve ter tido mais uma de suas crises, eu falei pra ela parar, ela disse que tinha o total controle da situação, pq será que todos pensam assim quando há tantos viciados perdendo tudo que tem, acabando com a vida por causa dela? Talvez pq eu tenha controle ela achou que também o tivesse, bela idiota, mas estou finalmente em casa, é só subir mais esses degraus e cama.


Enquanto isso no quarto - sabia que não poderia gritar, não tinha forças, não poderia se levantar, e agora tudo ficara escuro, o corpo dormente, morreria, largaria aquele mundo imundo, nojento, sempre tivera essa vontade de viver num novo mundo, mas mesmo ali era tudo igual, todos iguais, mesmo os amigos e ela, ela, mas como viveria sem ela, triste ela ficaria quando partisse, mas nada importava mais, talvez nem a amasse, talvez nada daquilo realmente importasse, agora lentamente seus olhos fechavam-se e dormia.


...sentei-me no último degrau da escada, e agora? Talvez não consiga continuar dali, a luz do quarto acessa, talvez ela esteja acordada, talvez seja melhor deixá-la, tudo isso é minha culpa...


Anne tira dois papelotes do bolso.


...é isso que a está matando...


A porta do quarto se abre. Uma bela garota estirada ao chão feita um cadáver, pálida, torta, morta...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

I - Crise

...noite de sábado, uma goteira no teto, o tic-tac do relógio, o tempo parava, a tensão aumentava, ficara de esperá-la ali, não sairia, seu corpo já não respondia bem, alucinava, e agora lembrara o ontem, as noites de ópio, os bares, sempre ao lado dela, esquecera de antes, como era tímida, inocente, vazia, sem vícios, não era feliz, mas não sofrera sua falta, e agora não havia vida, seu corpo agonizava, sua respiração difícil, e lembrara novamente dela, belas e prazerosas noites ao seu lado, de como a conhecera, de como era linda, alegre, e vazia como ela...olhava o relógio, 03:00, não podia esperar, lentamente levantara-se, vestia um casaco, suas pernas não respondem mais, lentamente ela cai no chão, esperava que ela entrasse a qualquer momento, sabia que não poderia sair, agonizava, agora restava-lhe arrastar-se até a porta, seu corpo doía, mas era tudo ou nada, iria atrás dela, não havia mais ninguém, ouviu então passos, finalmente, não morreria, não estava sozinha...