...manhã, segunda, recebe alta, onde estaria Anne? A agitação da cidade a deixa confusa, superara a crise, o movimentar de carros e pessoas agora parecia normal, sem vislumbres, sem alucinações. Um súbito desejo de se drogar ainda lhe persegue, uma dose de whisky no bar mais próximo, e logo estava ela atrás de Flea, sabia agora que poderia parar, não passaria por outra noite como a de sábado, mas um baseado não faria mal, só para tranqüilizar um pouco. Tocara a campainha várias vezes, nada, dois jovens sentados no degrau ao lado falavam de Flea, perguntei, fora preso sábado, junto com a mula que trazia a mercadoria, Anne saberia quem mais vendia, mas onde estaria...
O sangue inundava a cela, o policial caído, morto, presenciara um brutal assassinato na cela ao lado, estava em choque, pensara em fugir, mas nunca mataria alguém, a garota fugiu, armada, dois policiais a confrontaram, troca de tiros, baleada na testa, triste fim. E depois de toda aquela bagunça os dois entraram, estava livre, desacorrentada, desnorteada, e agora vagava pelas ruas sem fim, pelos corredores sombrios do metrô, a estação estava lotada a essa hora, mas o número de viciados era menor, não encontrara Flea nem George, e Natasha, estaria bem, talvez em casa.
Natasha lembrara de George, seu infame amigo, que fazia ponto no metrô, sempre tinha algo a mais do que consumia. A estação encontrava-se bastante movimentada, só alguns poucos viciados, e muitos passageiros. George largara o ponto, disseram que se livrara das drogas. Fora dali, a cidade parecia calma, mas onde estaria Anne. Talvez na escola, tinha faltado muito, não concluiria o curso, não receberia o certificado, melhor ir ao menos marcar presença...na aula, pouco prestara atenção, pensara nela, em casa, o que seria quando tudo acabasse, quando voltasse...
Precisava de algo mais forte, muitas tensões sucessivas, muito stress – cara cê tem um pico? - precisava de um pico, e um pouco de pó, tudo ficaria bem, em casa esperaria por ela. Não me picava, sabia dos ricos, das doenças transmitidas através das agulhas, misturava os dois pós e cheirava, aquela sensação, alucinações, euforia, ficaria bem, logo Natasha chegaria, então tudo escurecera...
...chegava em casa, era noite, ao subir as escadas notei a luz acessa, finalmente, não me drogaria mais, nos livraríamos do vício, seríamos felizes. Ao abrir a porta a vi caída, chamei, precisava comer algo, na geladeira nada, nos armários nada, perguntei se Anne não estava com fome, sairíamos, ela nada responde, tentei acordá-la, vi os papelotes, tivera uma overdose, não tinha pulso, se descontrolara, estava morta, nada eu podia fazer, não viveria sem ela. Sai, desesperada, precisava encontrar alguém, precisava de ajuda, corri, não notei o carro em alta velocidade...me lembro da pancada, forte, inevitável, mas agora estou com ela, não sei onde, nem o porque, sem drogas, nem vicio, apenas um bom lugar para se viver.